segunda-feira, 13 de abril de 2015

Como a apoteose de um surto esquizofrênico, o dia amanhecia mais uma vez naquele miserável lugar. O sol aparecia como o assassino que retorna para ver a vitima agonizando... ele estava lá, estaria lá e apenas se retiraria com a exaustão daqueles corpos embebidos em melancolia.
Os dias maquinais contrapunham as paredes brancas do quarto de Baboo; Aquele para quem o sol surgia como em um ato de voyeurismo; Aquele cuja mente resguardava o perigo de uma realidade infinitamente como ela era.
Os elementos eram, bem como as cores, suficientemente definidos aos olhos dos muitos, que começavam a movimentar as ruas da cidade logo cedo. A sujeira dos becos; O cinza da grande muralha, das grades e da realidade.
Aos olhos dos normais, no meio fio, a trepada nefasta do ébrio desfalecido e de Madama Butterfly.
Às expressões pesarosas, os atos faustos e corriqueiros do pássaro de sete cores beijando a Camélia cor-de-rosa se estabeleciam aos olhos de Baboo.
Os carros eram carruagens, enquanto as buzinas se distorciam como melodias na mente de um louco.
E o brilho dos olhos de cada criança abandonada, que implorava por esmolas aos pés do homem, era um céu estrelado mesmo à luz do dia.
Nas rimas áridas de macário, jogadas no meu bloco de notas
Encontrei qualquer coisa de valor
Sussurrei ao vento e esperei...
"Aqui é seco e pobre"
Falava meu coração, de modo certo
E de longe eu ouvi
"Pelo menos não caem bombas do céu"
E foi então que eu resolvi morrer de amor
Seja como for... desde que não caiam bombas do céu.
A única atitude que conseguias de mim, quase que involuntariamente, era o meu soluçar.
A única coisa que meu rosto poderia te ofertar, era a expressão advinda da tristeza por ti provocada.
Como se tu não mensurasses tua enorme força diante da minha fraqueza.
Como se fingisses não saber que, para mim, eras a medida de todas as coisas.
Tinhas o poder de me machucar mais do que qualquer coisa e, ainda assim, eu continuava te amando.
Era o querer estar perto mais dolorido do mundo. E muitas vezes eu o recusava, por não fazer questão de sentir essa dor.
Assim, sofrias. Assim, sofríamos nós.
Numa terra de mensageiros mudos e espectadores adormecidos
Que comungam a miséria e abstração de uma vida lamacenta
Infinitamente como as pequenas comoções
As vertigens
Os bichos da seda
Os apertos no meu peito
Infinitamente como as folhas secas
Os rebatedores de alma
A vida é um lago dentro de mim...