segunda-feira, 13 de abril de 2015

Rio de Janeiro, 1897

O cheiro do teu fraque
Enquanto o sol tocava o chão
Entre o refluxo de uma palavra e outra
E os dedos podres embebidos na cachaça de caju
A sordidez desses momentos de epifania
E a agonia que o domingo nos provoca
Com aquele ar de tragédia, bem como os nossos atos
Infinitamente como nós

Eu sei que quando acordo na segunda
Visto a cara mais falsa e infame
Como a tara do mais vil dentre os mortais
Pra suportar mais um dia vendo as moscas mortas no meu copo
Enquanto, na vala, o demônio sorri
Com os dentes cariados da alegria
Distante de qualquer conteúdo abastado de lucidez
Escondido nas sombras destes dias maquinais
Estende as mãos
Ao passo em que goza do meu quase renegar

Como os olhos das crianças da lavadeira abandonada
O céu chora
Como o canto dos bem-te-vis
No dia de finados
Como o vento, nessa mesma data
A decomposição dos corpos
O desaparecimento das silhuetas
Infinitamente como nós
As crianças órfãs
Choram

As ruas do cortiço
Quando a lua aponta o céu
Calam
Como o subordinado
E o arrependimento do passado
O sangue seco no chão
E o culpado
Chora

A sujeira dos becos
E as flores entardecidas
Os bastardos da lavadeira abandonada
Que sofrem má-nutrição
Obrigados a engolir a realidade mundana
Assim, os pobres têm fé nos dizeres da gitana
Infinitamente como nós
Afundados no ópio
Como os mortos sob a terra
As lápides choram

A solidão inóspita da Calle 8
Quebrada pelo som gutural dos transeuntes sugados pela adaga
Atrocidades intermináveis
Sede
Angústia
O anseio de responsabilizar alguém pela desgraça insolúvel
Infinitamente como nós
O cortiço
Chora e sofre.

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